Eu escrevi essa "crítica" aqui, muito antes de ter a idéia para esse site. E é interessante, que foi a minha primeira "crítica" de um filme japonês. Portanto, ficaram os comentários que eu fiz na época, a respeito de suas diferenças com o cinema ocidental atual e a razão pela qual eu acredito serem tão únicos e verdadeiros os filmes feitos por essa escola japonesa.
Esta é a minha primeira dissertação sobre um filme japonês, então é interessante perceber que partimos de um ponto totalmente diferente de um filme tradicional em estilo moderno americano. Particularmente a insistência em colocar cenas em que a vida cotidiana é encenada tão naturalmente, nos leva a perceber e refletir como que o cinema naturalmente se criou e como é a sua essência.

Pois, este não era nada mais que mais uma forma de entretenimento, para “passar o tempo” assim como o livro e a musica. Apenas uma outra forma de fazer as pessoas saírem de sua usual monotonia trazendo-a para outros lugares, e assim, não necessitava, tal como hoje de uma coesão e continuidade tão rápida e sem intervalos. Você ainda estava contando uma história, sim é claro mas, diferentemente do cinema atual você podia caprichar nas outras partes, passando mais imagens do cotidiano, enriquecendo a história com detalhes que a instantaniedade do cinema atual, não permite. Pois o espectador, tão cheio de compromissos e já acostumado com filmes “sem parada”, em que a estrutura cinematográfica cria todo um sistema que não para de o prender a atenção. Mesmo que ele não queira tanto dar aquele período de tempo para o filme, este dotado de vários artifícios, procura busca-lo mesmo assim, é difícil pensar da mesma forma com um filme japonês. Pelo menos esses que traduzem mais a escola de cinematografia do Japão. Especialmente porque estes sendo mais “parado” e descontínuos acabam por nos deixar mais atentos profundamente. Vou dar um exemplo.

Quantas vezes você já não ligou a televisão para fazer outra coisa como: comer ou arrumar a casa e, acabou apenas vendo aquele filme de ação de tirar o fôlego, deixando as outras tarefas um pouco de lado. Mas pense agora, e diga quantas vezes também você realmente teve de parar de ver algum desse tipo de filme e acabou que depois de alguns minutos já nem se lembrava direito do que estava vendo ? Sendo o cinema voltado para o imediato, acaba por sua vez passando esse tipo de sensação apenas imediatamente também, parece que, assim como alguns livros, esta acaba assim que paramos de lhes dar atenção. Exatamente nessa maneira que eu acredito que o cinema japonês se difere. A partir do momento que você deixa a película participar da sua vida, naquele tempo que decidiu por diversas razões, dar atenção para ela. Ela passa a fazer parte da sua vida também, dessa forma os personagens passam a ser mais cativantes, e o enredo continua a estar com você mesmo que você pare a projeção e faça outra tarefa. Possivelmente, perceberá estar pensando no filme, mesmo que já o tenha visto a algum tempo, assim como vai querer termina-lo se o tiver interrompido por qualquer razão. Me prolonguei nesse exemplo mas, acredito que ajuda a demonstrar uma das diferenças desse tipo de película.
Portanto, como você permite parte do seu tempo ser consumido com esse entretenimento, você acaba permitindo este dotar de seqüências menos absurdas, permitindo portanto este traduzir uma sucessão de fatos mais real do que seria permitida de outra forma.Ou melhor ainda a incentiva, pois dessa maneira este aproxima-se mais de você mesmo.
Então, diferente do “teatro de sucessões de diálogos” que a cinematografia atual coloca. Sem recheio, quase sem vida, você com esse tipo de película, tinha algo mais parecido com o saborear das páginas de um livro, onde você deveria se entreter com cada cena, onde você com a inicial falta de expectativas, você acaba sendo sugado pelas situações tão cotidianas, verdadeiras e comuns que não consegue se desvencilhar mais. E acaba adotando os personagens da história tão próximo de si que parece incrível que isso seja possível para um espectador tão indiferente e sem expectativas anteriormente.

Seria mais como a vida real, como nós todos nos comportamos, mais próximo de como nossas vidas se formam. Estas não são uma simples sucessão de fatos, que sempre leva a um fim definido. Mas muito mais que isso, é uma continuidade de cenas em que algumas histórias vão se formando, muitos sentimentos nascendo, crescendo, morrendo e principalmente se entrelaçando, cruzando uns aos outros e estas sim formando as histórias.Essas histórias não nascem de um roteiro definido, mas tem vida própria e a medida que recriamos o ambiente em que elas surgem, estas nos trazem para um ambiente que não poderíamos estar mais à vontade.
Com essas histórias que nascem quase que ao acaso, temos enfim algumas trajetórias definidas, mas cada qual como seu tempo e personalidade e fim inesperado. É por isso que o cinema japonês, depois que passamos as barreiras do desconforto pela sua natureza tão diferente da que estamos acostumados aqui no ocidente, nos trás a natureza mágica pela qual ficamos encantados se deixamos esses nos tomarem.
Esse filme fala muito sobre o encontro de duas nações especialmente do entendimento de toda uma geração que antes lutava em uma luta de sangue. Acredito que ele se baseia em coisas mais indefinidas do que a obviedade de um encontro entre Estados Unidos e japão. Se baseia em saber perdoar e entetender as diferenças, fala sobre perceber que as pessoas são diferentes das suas nações e que especialmente os preconceitos são coisas em que devemos ter cuidado em não se apoiar. Especialmente na velhice quando todas as coisas parecem já ter significado certo, e nos acostumamos a não querer aprender mais...
É da suave questão de gerações, pais, filhos e avós. Passado e futuro, e o cotidiano. Como aparentemente esse tipo de filme japonês sempre procura mostrar.
Este já foi suficientemente clamado pelo público e crítica para que se precise fazer algum apelo para que se assista. Mas mesmo assim, indico para que se veja com a mente aberta, e a inteligência atenta para o comum assim como os detalhes, que são igualmente importantes. Assim como, igualmente interessantes.
...